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14/06/2010 - 10:50

Lixo para mim não existe, diz economista de Marina Silva

Terra

Responsável pela elaboração do plano de governo de Marina Silva, o economista Paulo Sandroni, da Fundação Getúlio Vargas, é tão movido pela causa ambientalista quanto a candidata à presidência da República pelo PV: "Lixo para mim não existe, o que existe é material fora do lugar", diz ele.

O programa de governo que Sandroni coordena terá como prioridades não apenas o desenvolvimento sustentável, mas também educação, saúde, e pilares relacionados como saneamento básico, diz o economista. Próximo de Marina desde o ano passado, Sandroni esteve recentemente na Colômbia, em busca de inspiração para as diretrizes gerais do programa. "Estamos muito impressionados com o trabalho que fizeram lá com transporte", explicou.

Para redigir o documento, ele contou também com a ajuda de cem especialistas em políticas públicas, entre eles Ricardo Paes de Barros, do Ipea, que tem estudos sobre renda e inclusão social, e o ex-secretário nacional de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares.

Preocupado em incentivar a produção econômica de forma não-predatória, Sandroni fez um alerta para o fato de o desenvolvimento levado a cabo nas gestões FHC e Lula não ser capaz de se manter a médio e longo prazo. Corrigir essa deficiência, ele garante, será o principal objetivo de Marina.

Terra - Quando se monta um programa de governo por onde começar? Pelas necessidades ou pelas mudanças que se quer implementar?

Paulo Sandroni - Tem de se fazer um trabalho conjunto entre ao que a nossa análise da realidade brasileira nos leva e quais as consequências dessa análise e, por outro lado, quais são as demandas mais sentidas da população. Tem de haver casamento dessas duas esferas.

Terra - Qual o histórico de seu envolvimento com Marina?

Paulo Sandroni - Em 2008, fui convidado para trabalhar em conjunto com a Universidade de Tóquio, em um projeto de sustentabilidade sobre 18 megacidades.

Esse estudo fez com que eu me aproximasse de algumas pessoas que estavam tratando disso.

Em 2009, achei a atitude de Marina muito boa quando resolveu sair do Ministério do Meio Ambiente.

Isso fez com que eu criasse uma grande simpatia por ela e comecei a escutar mais o que dizia.

Em novembro recebi um convite para conversar e achei interessante a proposta que ela tinha, além de ter me parecido uma pessoa com grande integridade pessoal.

Essa ideia de conservação é uma coisa muito importante para mim. Detesto desperdício e isso é quase uma obsessão. Lixo para mim, por exemplo, não existe. O que existe é material fora do lugar.

Terra - Quantas pessoas estiveram envolvidas na elaboração do plano de governo?
Paulo Sandroni - Foram cem pessoas. Quando eu cheguei já tinha muita gente participando e colaborando. Essas pessoas trouxeram contribuições, direta ou indiretamente através de 30 pessoas que participaram mais ativamente.

Terra - O eleitor que não vai votar em Marina argumenta que a candidata tem uma agenda muito centrada no ambientalismo. Quais outros setores vêm sendo priorizados?

Paulo Sandroni - Educação, sustentabilidade urbana, que inclui moradia, saneamento básico, transporte e, especialmente, saúde. Saneamento é dos elementos centrais para a manutenção e prevenção da saúde. A saúde é um setor onde os custos humanitários estão aumentando. E qual o meio de reduzir ou mitigar esse impacto? É com a prevenção.

Todos sabemos que a prevenção de doenças é muito mais barata do que o tratamento.

E é um mecanismo que passa também pela educação.

Educação é prioridade, mas isso não quer dizer que outros pontos não são também.

Água limpa, esgoto e energia elétrica. Se essas três coisas faltarem, acontecerá um desastre na saúde.

Nosso plano também é que as pessoas possam ter moradia digna que não fique no fim do mundo. Antes de fazer uma comunidade de casas para o povo, você tem de levar infraestrutura. E nisso é preciso articulação com prefeitos e governos estaduais para uma política de organização do espaço urbano, de maneira que as pessoas mais pobres não sejam expulsas de onde estão e que vivam em um lugar bem localizado.

Terra - Já que a educação tem bastante destaque dentro do plano de governo da ex-ministra, o que podemos esperar de novo no setor?

Paulo Sandroni - A concepção é a seguinte: temos de melhorar a educação em todos os níveis. Desde os níveis iniciais, quando a criança entra no seu processo de socialização, nas creches, até a pós-graduação mais avançada, que tem enlace científico e tecnológico.

Então você tem que aumentar a abrangência porque há muito analfabeto ou mesmo quem chega ao primeiro mas não ao segundo grau.

Outro ponto é em relação á qualidade do ensino. O professor tem de ser valorizado.

Tudo isso vai implicar um esforço muito grande para dar um salto na educação. Não apenas no sentido social, mas também econômico, através da competitividade, do conhecimento, da ciência, da tecnologia, do aumento da produtividade.

Terra - Em relação à economia, o que será diferente?

Paulo Sandroni - A nossa preocupação é com crescimento econômico e como mantê-lo sustentável. Não pode ser um crescimento de 6% em um ano e zero em outro.

Precisa ser sustentável e não tem sido até agora. Tem de ser sustentável, sem inflação e com estabilidade monetária. Precisamos também de estabilidade fiscal, com manutenção de superávit primário, taxa de câmbio flutuante, que não pode ser levada a extremos de valorização - que prejudica exportações - e nem de desvalorização - que pode levar a níveis inflacionários. Além disso, deve haver independência do Banco Central.

Achamos que o BC deve ter presidência técnica e não política. Não é um cargo político.

O BC é guardião da estabilidade da moeda e tem de zelar por isso.

Terra - E pontos sensíveis para Marina como agricultura e pecuária? O que muda?

Paulo Sandroni - A nossa preocupação é para que a agricultura seja sustentável e não predatória. É preciso reforço à agricultura familiar e emprego de novas tecnologias para que seja sustentável. É muito forte a preocupação para que a devastação cesse. O mesmo em relação à pecuária.

Terra - Marina apresentou recentemente o que vem chamando de programas sociais de terceira geração, uma espécie de unificação. Haverá algum programa novo?

Paulo Sandroni - Estamos propondo que as políticas sociais sejam integradas com vários outros programas, de maneira que haja sinergia. E que no desenlace se tenha uma porta de saída. Enquanto as pessoas não tiverem condições de se manter, devemos continuar o programa. E com uma política de terceira geração, que significa proporcionar a saída. Seja um emprego, uma renda, de modo que não seja preciso depender mais dessa ajuda.

Terra - O senhor esteve recentemente na Colômbia para olhar mais de perto o quê?

Paulo Sandroni - Fui analisar todo o processo da Colômbia. Conheço bem o país, tenho conhecidos lá, inclusive o próprio Antanas Mockus (candidato à presidência pelo Partido Verde colombiano). Estamos muito impressionados com o trabalho que fizeram lá com transporte. Em Medellín, fizeram um transporte aéreo nas favelas, que é limpo, confiável, silencioso e barato. É algo que poderia se generalizar no Brasil como política pública de transporte, que de certa maneira poderia mitigar a questão do trânsito aqui em São Paulo.

Terra - Em termos de política externa, Marina defende como eixo central a defesa dos direitos humanos na negociação com outros países. Mas, como o próprio chanceler Celso Amorim diz, se deixarmos de negociar com todos os países que violam os direitos humanos, não faremos negócios com mais nenhum. Como proceder então?

Paulo Sandroni - Não há nenhuma incompatibilidade em você criticar esses países que desrespeitam os direitos humanos e negociar com eles em nome da paz. A paz é um dos valores que mais defendemos. Paz e solidariedade, que devemos ter com muitos países, como os africanos.

Terra - Então não significaria deixar de negociar com esses países?

Paulo Sandroni - Claro que não. Cuba também está sofrendo muito, há mais de 50 anos, com esse maldito bloqueio. Você pode criticar o bloqueio, mas eles também têm de prestar contas sobre seus presos políticos. A mesma coisa com o Irã. Eu não quero que os americanos, em um gesto tresloucado, pensem em invadir o Irã como fizeram com o Iraque, que resultou nessa matança. Mas não é por isso que vou deixar de criticar a política que eles têm com seus dissidentes.

Terra - O que o governo do PV fará que não foi feito pelo PT e PSDB nesses últimos 16 anos?

Paulo Sandroni - Não tenho acompanhado tudo o que os dois fizeram, mas uma coisa é certa: o desenvolvimento que tem sido feito nos últimos 16 anos não é sustentável.

Não se pode garanti-lo. Aliás, do ponto de vista econômico, foi um crescimento raquítico.

Em 80 crescemos 1,5%, nos anos 90 o crescimento subiu para 2,2%, e nos anos da primeira década do século 21 cresceu cerca de 3% ou um pouco mais. Mesmo esse pequeno crescimento não é sustentável, porque você está destruindo seus recursos naturais em nome dele. Nós alertamos: o desenvolvimento que vem sendo levado não é sustentável nos prazos médio e longo. E nossa preocupação é com futuro, porque quem não tem visão de futuro não tem futuro algum.

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