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22/05/2010 - 10:14

A estreita terceira via de Marina

Revista Época

Em agosto do ano passado, quando deixou o PT e se transferiu para o Partido Verde (PV), a senadora Marina Silva (AC) queria transformar-se em uma alternativa eleitoral à anunciada polarização entre a ex-ministra Dilma Rousseff, candidata governista ao Planalto, e o principal nome da oposição, o ex-governador de São Paulo José Serra, do PSDB. Na solenidade de filiação à nova legenda, Marina defendeu uma nova forma de gestão pública, com foco numa economia ambientalmente sustentável , e a revisão do programa do PV para incorporar outras bandeiras, além das ecológicas. Menos de cinco meses antes da eleição presidencial, o discurso da senadora ainda não surtiu efeito. Pelas últimas pesquisas, a disputa pela Presidência continua restrita a Dilma e Serra.

Adriano Machado

A Candidata

Marina Silva em frente ao Congresso. Sua campanha dará prioridade à classe média, aos jovens e às mulheres pobres e evangélicas

Na semana passada, dois acontecimentos deram nova energia à campanha de Marina. No dia 16 de maio, o PV formalizou em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, a candidatura de Marina à Presidência da República. Em clima de festa, mais de 1.000 militantes verdes de todo o país prestigiaram a largada de Marina na corrida rumo ao Planalto. No palco, estava o cantor e compositor Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura de Lula, fundador do partido e um dos maiores entusiastas da candidatura Marina. Na mesma ocasião, os verdes anunciaram a segunda boa notícia. Depois de muitos meses de negociação, o empresário Guilherme Leal aceitou ocupar a vaga de vice na chapa de Marina. Sócio da Natura, empresa do ramo de cosméticos, Leal ficou bilionário adotando práticas mais compatíveis com o meio ambiente. A identificação com as causas ecológicas e, claro, a possibilidade de reforço no caixa fizeram de Leal o nome ideal para acompanhar Marina na busca dos votos dos eleitores.

Marina tem vontade de sobra para enfrentar os dois adversários mais fortes. Ela costuma se comparar à jaguatirica, um tipo de onça muito comum no Brasil, geralmente associada à imagem de ferocidade. O jeito delicado da senadora guarda pouca semelhança com a natureza violenta do felino, mas a referência ao animal dá uma ideia do espírito que ela pretende imprimir na campanha. Filha de uma família pobre do interior do Acre, a mulher que o PV quer levar ao Planalto trabalhou como seringueira e empregada doméstica para ajudar a sustentar os sete irmãos sobreviventes. Marina aprendeu a ler e escrever aos 16 anos pelo antigo Mobral, o programa de alfabetização do governo militar. A militância no PT proporcionou a Marina uma surpreendente trajetória política que a levou ao ministério de Lula, de onde saiu em maio de 2008, descontente com a falta de apoio para suas propostas.

A confirmação do nome de Leal completou a equipe montada para conduzir a campanha. Na mudança para o PV, Marina levou outros dez petistas insatisfeitos com o governo Lula. Entre eles o ex-deputado federal do PT de São Paulo Luciano Zica, ex-secretário Nacional de Energia do Ministério do Meio Ambiente. Na campanha, ele é responsável pela escolha da agenda política. Outro ex-auxiliar de Marina que migrou para o PV, Bazileu Margarido, ex-presidente do Ibama, atua agora como assessor da candidata.

O ex-secretário executivo do ministério João Paulo Capobianco continua no posto de principal ideólogo de Marina para as questões ambientais. Fundador das s ONGs SOS Mata Atlântica e do Instituto Socioambiental (ISA), ele já era filiado ao PV e foi sua ponte com o novo partido.

Para elaborar o programa econômico, Marina escolheu dois especialistas de peso: os economistas Paulo Sandroni, da Fundação Getulio Vargas, e Eduardo Gianetti da Fonseca, do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), que também é cientista social e escritor.

Sandroni e Gianetti têm a responsabilidade de formular propostas para atrair os setores identificados com as práticas conhecidas como nova economia, chamada pelo PV de “economia descarbonizada”. Os dois contam com a colaboração de Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), especialista em desigualdade social, educação, pobreza e mercado de trabalho no Brasil e na América Latina.

Marina tem pouco tempo para empinar a campanha e se mostrar
em condições de chegar ao segundo turno

O PV incluiu na assessoria da candidata o presidente em exercício da legenda, o vereador carioca e ex-guerrilheiro Alfredo Sirkis, atual coordenador-geral da campanha. Das ONGs ambientalistas, o nome mais conhecido é do administrador Roberto Kishinami, que atuou como consultor do ministério na gestão Marina. Também faz parte da equipe de colaboradores do programa de governo o antropólogo Luiz Eduardo Soares, secretário Nacional de Segurança Pública em 2003.

As pesquisas encomendadas pelo PV mostram que três segmentos aceitam com mais facilidade o nome da senadora. O primeiro são os setores da classe média que discutem temas modernos como aquecimento global, desmatamento na Amazônia e reciclagem de lixo. O segundo segmento é o de jovens que se informam pela internet e buscam causas novas para se envolver.

O terceiro grupo é o de mulheres pobres e cristãs identificadas com a história da candidata.

O problema mais grave para Marina é a falta de estrutura partidária. Com uma bancada de 15 deputados, o PV só disporá de três minutos de propaganda eleitoral na TV. Como trunfo, a candidata tem o apoio do cineasta Fernando Meireles, responsável pelo programa do partido que foi ao ar há quase dois meses.

A chegada de Marina ao PV causou turbulências. O ministro da Cultura, Juca Ferreira, pediu licença do partido por discordar da candidata em relação a temas como aborto, homossexualidade e pesquisas com células-tronco. Marina é contra o aborto e a descriminalização das drogas, propostas defendidas no programa do partido. Nesses dois casos, ela propõe plebiscitos para que a população decida (leia mais na entrevista de Marina).

Marina tem pouco tempo para empinar sua campanha e se apresentar aos brasileiros como candidata em condições de chegar ao segundo turno. Estacionada na faixa em torno dos 10% dos votos segundo as pesquisas, de agora até outubro ela terá de se desdobrar em reuniões, comícios e negociações partidárias para tentar alcançar pelo menos um dos adversários.

Trata-se de uma tarefa dificílima. Se conseguir quebrar a dicotomia entre Serra e Dilma e ampliar as faixas da população que aceitam suas propostas, Marina tem chances de alcançar a meta. Caso contrário, corre o risco de sair da eleição menor do que entrou, como aconteceu com Heloísa Helena, candidata derrotada do PSOL em 2006.



Aliados - Marina abraça o companheiro de chapa, Guilherme Leal, no anúncio da candidatura pelo PV. Ao lado, o ex-ministro Gilberto Gil é um entusiasta da candidata verde


A equipe de Marina Silva

Quem são os responsáveis pela campanha do Partido Verde e os formuladores de políticas públicas do programa de governo que a candidata deverá apresentar na disputa pelo Palácio do Planalto

Guilherme Leal

Vice de Marina, é sócio da Natura. Será um dos principais financiadores da campanha e fará a ligação da candidata com o empresariado

João Paulo Capobianco

Ex-secretário do Ministério do Meio Ambiente, é o principal ideólogo de Marina. A partir de julho será coordenador-geral da campanha

Alfredo Sirkis

Vereador no Rio, é vice-presidente do PV. Coordenará a campanha de Marina até junho, quando lançará sua candidatura a deputado federal

Luciano Zica

Ex-deputado federal pelo PT, faz a supervisão política da candidatura. Vai concorrer a deputado federal por São Paulo

Bazileu ALves Margarido

Assessor direto de Marina no Senado, vai atuar como uma espécie de secretário executivo da candidata

Paulo Sandroni

Professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), coordena a equipe que elabora o programa de governo da candidata

Eduardo Gianetti da Fonseca

O economista ajudará no programa de governo propondo mecanismos que aumentem a transparência

Ricardo Paes de Barros

É economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Deve colaborar na elaboração dos programas sociais da candidata

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